OS RALHETES PRESIDENCIAIS

(*) MENDONÇA JÚNIOR
Circunspecto, silencioso e quase mudo durante grande parte do seu duplo mandato presidencial, Jorge Sampaio mudou visivelmente de comportamento nesta fase final da sua permanência em Belém.
De facto, uma análise à sua agenda de tarefas dos últimos meses mostra-o num vaivém constante pelos locais mais recônditos do País que acolhem as suas “presidências abertas”; e também empenhado, no cumprimento de uma rica e variada grelha de visitas ao Estrangeiro, das quais a mais inédita e a mais sonante foi a que o levou a Beijing, acompanhado de uma nutrida representação do empresariado nacional atraída, ao que consta, pelo cheiro dos “negócios da China.
O que, vem a propósito recordar que essa propensão do PR em convidar o empresariado nacional – nas suas bem recheadas comitivas das suas visitas ao estrangeiro, que já se contam por quase uma centena – sem que sejam clarificadas as fabulosas despesas do erário público, como por exemplo: as recentes visitas ao Chile e Paraguai. Por tudo isto se diz… por aí… que a intenção do PR é manter e atrair, para o futuro, novos clientes para o seu escritório de advogados.
Entretanto, por outro lado, uma nova leitura, do que tem sido publicado nos média, revela um outro facto que não lhe era conhecido: outra propensão… para a fluidez verbal. O que, em boas verdade, não é para admirar nele que é advogado de profissão.
A fuidez do discurso é seguramente uma virtude apreciável, mas tem por costume comportar riscos, como lapsos de memória, juízos precipitados ou infundados, considerações inadequadas e muitas coisas mais. O que, em boa verdade torna sempre actual esse “errare humanum est”, postulado pela velha sabedoria romana.
Para justificar e ilustrar o que antes foi dito, escolhemos ao sabor do acaso, duas ocorrências recentes, em que ele, o nosso PR, foi sujeito.
A primeira teve por cenário um dos departamentos da nossa Força Aérea, que estava a visitar. A certa altura do percurso, foi ele abordado por um grupo de jornalistas, que quiseram conhecer a sua opinião
sobre as medidas que o Governo acabára de tomar e que tantos protestos estavam a suscitar na opinião pública. A resposta surgiu pronta, sim, mas com contornos surpreendentes porque inusitados: visivelmente irritado e descomposto. O PR, de dedo em riste – fazendo lembrar o professor do menino Tonecas – explicou aos jornalistas que, estando de visita a um departamento da Força Aérea, naturalmente que só poderia responder a perguntas relacionadas com essa mesma visita.
O ralhete foi aceite, sem qualquer reacção. Imperou o silêncio, quando o natural seria que logo surgisse alguém a lembrar-lhe que um PR deve estar sempre disponível para atender e esclarecer o que é de interesse para a opinião pública que o elegeu.
O outro ralhete aconteceu mais tarde, algures por aí, durante uma cerimónia por ele presidida. Desta feita, não foi para os Jornalistas, mas sim para as entidades bancárias nacionais, a quem arguiu, de forma clara o que em síntese se poderá resumir: «… de não estar a privilegiar os verdadeiros interesses de Portugal, com essa sua crescente disponibilidade para conceder créditos à “arraia miúda”, que os desbarata na aquisição de coisas supérfulas como os automóveis e os telemóveis. Ao invés, por exemplo, de os conceder a empresas que estão apostadas em desenvolver novas tecnologias no mercado nacional».
Esse requisitório surpreendeu e muito, pela forma exclusivista com que foi feito – o que, de certa maneira, parece vir a confirmar o que atrás se disse – isto é: uma desenfreada caça para “manter e atrair, para o futuro, novos clientes para o seu escritório de advogados”.
Em termos de fundo, o nosso PR, deixou bem claro que afinal conhece imperfeitamente o nosso Querido País. O teste comprovativo disso pode ser obtido com a formulação das seguintes perguntas:
– Sabe, por acaso, o PR que os créditos bancários concedidos à chamada “arraia miúda” não se destinam apenas á compra de automóveis e telemóveis, mas sim e principalmente à aquisição de bens e serviços essenciais como casas para morar, que são das mais caras da Europa; o custeio da escolaridade dos filhos; despesas com a saúde, que o Estado via de regra não paga, mesmo àqueles que contribuem para a Segurança Social; etc…etc…!
– Sabe que, o recurso ao crédito bancário, milhares e milhares de portugueses não teriam a mínima condição de sobrevivência!
– Sabe, ainda, que os que recorrem ao crédito para comprar automóveis, porque não os tem cedidos pelo Estado, se situam entre os que mais contribuem para saciar a voracidade fiscal desse nosso Estado perdulário. A quem pagam regularmente e sem possibilidades de fuga: o IRS; o IA; o IVA; a taxa de circulação e – “at last but not at least” – as faraónicas multas consignadas nesse monstro que é o novo Código de Estradas!
– E, sobre tudo isto, sabe, que os banqueiros são empresários como os demais. Por isso são donos da sua mercadoria (o dinheiro) que vendem, ou emprestam, com juros, somente a quem lhes convém!
Comentário: Senhor Presidente da República e Chefe Supremo das Forças Armadas porque nada disse ainda, de forma clara, pormenorizada e corajosa, sobre os três temas, altamente controversos, da actual política Nacional: INCÊNDIOS, OTA e TGV?
(*) Coronel de Cavalaria.
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